“Maurinho” mesmo, este foi o seu nome de registro e de batismo. Perguntei-lhe se não era um apelido carinhoso de infância, e ele respondera: “Não, sou Maurinho, mesmo!”. E pensei aqui com os meus botões: “já no próprio nome ele foi assinalado por Deus para se fazer humilde e acolhedor.” Esta impressão, que já carregava comigo, tornou-se mais palpável ainda neste sábado, dia 23 de agosto.

Após dar um grande passeio pela feira, cansado, na subida da ladeira, parei na Mercearia Ribeirão para descansar, retomar o fôlego e continuar o trajeto, o que fiz em meia hora, tempo suficiente para observar o comportamento deste homem comunicativo de olhos azuis, azuis mais fortes que o azul de sua blusa, do mesmo tom.

Pessoas da roça e da cidade circulavam enquanto ele, sentado à sua mesa, perto da porta, se desfazia em saudações e atenções a todos. Mas diria que predominavam pessoas simples, chapéu de palha, ou de couro, que ali se abasteciam como se estivessem em um centro de distribuição comunitária. A maior parte trazia seus carrinhos, e ele diligentemente anotava as compras de cada um, sem exigir cheque, promissória ou cartão de crédito. Uma senhora, magrinha, rosto marcado pelo sol, lhe confessa e pede: “Maurinho, tenho mais nada em casa. E dinheiro só chega no começo do outro mês”. Ele não deixa nem a velhinha terminar e ajunta, em voz cordial: “vá, minha irmã, pegue o que precisa. Faça suas compras”. O velho vaqueiro de chapéu de couro, a segue, no mesmo ritmo: “Maurinho, posso…” E ele, sabedor do ritual, complementa: “Entre, veja o que está precisando”. Enquanto isto, um rapaz lhe entrega uma lista enviada por seu pai. Ele a abre, e manda um funcionário separar os itens, dizendo a outro: “compre ali dois analgésicos na farmácia e traga dez pães”. O gentil comerciante, além de atender o pedido com os seus produtos, manda comprar fora outros itens solicitados pelo lavrador que não pôde ir à feira. “Meu Deus, eu não acredito que em pleno século XXI, em minha terra, Senhor do Bonfim, haja um comerciante que transforme seu mercado em uma dispensa popular, em um centro comunitário de assistência e apoio social”, confessei a mim mesmo.

Embevecido, admirado, já pensava em me retirar quando entrou uma senhora de meia idade dizendo que estava passando mal. Maurinho a acomodou em uma cadeira, aferiu sua pressão, deu-lhe água a beber, e observou: “A Mãe dela é uma senhora bem idosa e forte, mas ela coitada, sempre passa mal, sempre tem essas fraquezas…” E enquanto eu pergunto à senhora enfraquecida se ela tivera “resguardo quebrado”, o Dispenseiro de Deus e do povo simples mandara chamar um táxi, tomara uma nota de vinte reais e a encaminhou ao hospital.

Bendito “São” Maurinho Cardoso Ribeiro, coração magnânimo, que faz do seu comércio o coração do povo sofrido e carente de nosso chão! Jóia rara, exemplo de humanidade, que leva a sério o mandato de Jesus Cristo: ““Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11.28-30).

Continuei a minha viagem com um sorriso nos lábios e com uma certeza que me acalenta: “Nem tudo está perdido nesta roda-viva em que vivemos! Nem tudo está perdido, neste mundão de meu Deus!”
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Paulo Machado
24 de agosto de 2014