ENTRE A JUSTIÇA E A VINGANÇA: AS CONTAS DE CARLOS BRASILEIRO

A Câmara Municipal de Senhor do Bonfim está prestes a colocar em votação a aprovação ou a reprovação das contas do então prefeito Carlos Brasileiro. Sete votos serão necessários para que o hoje Deputado Estadual continue a sua trajetória política sem a ameaça de ser de fato definido como ficha-suja, e impossibilitado de concorrer a novos pleitos. Creio que Senhor do Bonfim e região se encontram diante de um momento importante, que pode trazer consequências funestas para o crescimento local e regional, tudo dependendo da decisão acima referida. Esperamos que os senhores vereadores (e a nossa única vereadora) sintam-se movidos pela racionalidade e justiça que o ato e o momento exigem, o que pode também ser feito com apoio em alguns pontos de análise que me sinto convidado a fazer:

 

1. Sabe-se que os questionamentos feitos às contas em julgamento do então prefeito Carlos Brasileiro se devem a motivos técnicos, fruto de equívocos operacionais do setor contábil de então. Praticamente as primeiras contas do hoje deputado estadual funcionaram como uma primeira tentativa de arrumar um município que ainda não tinha sido colocado no rumo e no prumo da Lei de Responsabilidade Fiscal, até então uma desconhecida para a maioria dos municípios brasileiros. Há de se considerar que as contas não apresentam dolo, malversação de recursos ou coisas que tais, e os edis, ao votarem, não podem perder de vista que todo ensaio está sujeito a erros e acertos, e que o gestor de então se viu movido pelo desejo de acertar, de ajustar a máquina pública a desafios contábeis que eram novos e pouco conhecidos ou experimentados;

 

2. Há de se levar em conta que a reprovação das contas, em um momento como este, poderá privar o município e o nosso território do espírito de luta e do empenho que o deputado vem demonstrando, a partir de sua vasta experiência nos corredores dos ministérios em Brasília e de sua penetração em espaços estaduais de poder. (Isto não podem negar os seus opositores). Não se pode negar o quanto o ex-prefeito de Senhor do Bonfim tem feito gestões para que possam chegar benefícios, obras e desenvolvimento a nossa terra e aos nossos municípios, o que se frustraria caso seja impedido de concorrer a novos pleitos eleitorais;

 

3. Seria importante na atual conjuntura colocar às claras se o que move os que torcem e pugnam pela reprovação das contas a serem colocadas em julgamento não seria o motivo da simples e pura vingança. Uma vingança diante de um político que incomoda, que criou situações de conflito, que tem uma personalidade forte e por vezes é criticado. Mas não se pode esquecer que “a vingança é sempre má conselheira” e não convém às almas nobres e àqueles que têm compromisso com os altos destinos da municipalidade e da sociedade. Caberia então nesta hora retomar a sábia análise do filósofo e político inglês do século XVII, Francis Bacon, que condena veementemente a vingança como estratégia ou ação política: “A vingança é uma espécie de justiça bárbara, de tal maneira que quanto mais a natureza humana se inclinar para ela, tanto mais a deve a lei exterminá-la. Porque a primeira injúria não faz mais que ofender a lei, ao passo que a vingança da injúria põe a lei fora do seu ofício. De certo, ao exercer a vingança, o homem iguala-se ao inimigo; mas, passando sobre ela, é-lhe superior; porque é próprio do príncipe perdoar. E tenho a certeza que Salomão disse: «É glorioso para um homem desdenhar uma ofensa». O que passou, passou, e é irrevogável; os homens prudentes já têm bastante que fazer com as coisas presentes e vindouras; não devem, portanto, preocupar-se com bagatelas como o trabalhar em coisas pretéritas.(Francis Bacon, in ‘Ensaios – Da Vingança’)”. Além do mais, ao inútil e indesejável sentimento de vingança deve se sobrepor o gesto nobre de deixar que a história e as urnas decidam quem deve ou não continuar a ser um agente político em favor do próprio povo.

 

A Câmara Municipal de Senhor do Bonfim mostrará maior nobreza caso se deixe guiar pela racionalidade e pela justiça, aposentando de vez decisões estranhas aos maiores interesses da verdadeira política a ser cultivada nos dias de hoje: por que não aprovar as contas de um prefeito que sempre procurou acertar ao dirigir os destinos de nossa terra?

 

Paulo Machado, prefeito de Senhor do Bonfim, aos 7 de novembro de 2012