Com a seca que se abate sobre a imensa porção do território baiano, assim como em outros estados da região Nordeste, as fragilidades dos municípios de diversas regiões do estado se expõem muito veementemente. A dependência da agropecuária, como atividade econômica que dá sustentação às populações rural e urbana, direta ou indiretamente, mostra-se evidente, assim como a sua fragilidade, dado que é totalmente desestruturada e desarticulada.

Há décadas é assim, e lamentavelmente por décadas será, tanto porque a seca voltará – essa é a única certeza – quanto porque continuamos a não ver ações estruturadoras, que não só permitam a efetiva convivência com a estiagem, com o uso de tecnologias adequadas pelo homem do campo, como que assegurem opções e alternativas de sobrevivência com o desenvolvimento de atividades que não dependam diretamente das chuvas. Entramos na segunda década do século XXI e nada de novo foi apresentado como alternativa de solução para os municípios do semiárido baiano para alavancar suas economias e tornar suas populações menos vulneráveis. No limite, parece que há uma forma dissimulada de se estimular a permanente migração para a capital e o esvaziamento das cidades pequenas das regiões que vira e mexe sofrem com a seca.

Lamentavelmente ainda carecemos de politicas públicas mais consistentes, de uma maior articulação entre os atores e agentes econômicos, e muito, mas muito mais investimentos. O volume de recursos aplicado ainda é muito pequeno. As ações ainda são esparsas, pontuais, desarticuladas. Tanto no combate aos efeitos da seca, quanto nas ações da sua prevenção, mas principalmente, na identificação de alternativas, na concepção de projetos e na atração de empreendimentos que gerem postos de trabalho e que dinamizem a economia, gerando renda, socializando o conhecimento e democratizando as tecnologias.

Não podemos admitir que só a capital e a região metropolitana absorvam os grandes projetos, os grandes empreendimentos, ofereçam os melhores empregos, paguem os maiores salários, tenham os melhores serviços. É preciso interiorizar o desenvolvimento, dar acesso às comunidades do semiárido, que não têm o mar e turistas pra ver todo dia, os mesmos benefícios dos que já são privilegiados pela natureza. Há quem afirme que, justamente pelo fato de não serem contemplados pelos benefícios da natureza, a compensação, traduzida em mais investimentos do Estado, deveria ser maior. Municípios como Bonfim e Campo Formoso e os demais do entorno, merecem maior atenção e maior dedicação dos órgãos dos governos federal e estadual. As potencialidades locais não estão sendo plenamente aproveitadas por falta de investimentos, tanto em infraestrutura quanto na implantação de empreendimentos, como na mineração e na indústria, atividades que não dependem tanto do abastecimento de água, e que podem ser implantadas ou ampliadas na região e gerando muita renda e emprego, reduzindo a dependência da agropecuária e das chuvas.

É preciso reconhecer os recentes investimentos feitos pelos governos federal e estadual, as conquistas dos deputados locais, como os conjuntos habitacionais, os projetos de saneamento, mais estradas asfaltadas e outras ações sociais, mas ainda é pouco pra necessidade que temos. A sociedade local precisa se animar e se articular no sentido de buscar, via seus representantes, fortalecendo-os, mais ações governamentais para que possamos tirar a região de um estado de pouca dinâmica, de quase estagnação. Não custa sonhar mais alto e imaginar que um dia a região poderá ser tão dinâmica quanto as do litoral, mesmo sofrendo volta e meia com a seca, que não é impeditivo pra tudo, nem deve ser motivo pra que nos acomodemos. Continuar a cobrar não significa que não se sabe reconhecer e agradecer, assim como reconhecer e agradecer as ações realizadas não pode limitar o ato da continuada cobrança por mais e sempre.

Marcio Ferreira Araújo Silva

Economista